Episódio 1/5 | O mundo feito de gente de verdade

Até os anos 90, a maior parte das pessoas que realmente importariam para a nossa história já teria cruzado o nosso caminho muito cedo. Importariam no sentido forte da palavra. Pessoas que nos viam de perto, nos reconheciam e associavam o nosso nome a alguém que de fato existia.

Isso dava ao mundo um desenho mais compreensível. A cidade, a escola, a vizinhança, o trabalho, a família ampliada. Mesmo quando alguém mudava de lugar, a vida social ainda preservava certa continuidade. Os nomes voltavam. As histórias circulavam dentro de um mesmo conjunto de pessoas. Os vínculos ganhavam espessura com o tempo. As relações amadureciam, às vezes por afeto, às vezes por atrito, porque havia permanência e familiaridade suficientes para isso.

O contorno da vida era dado por menos gente, de convívio real, concreto e repetido. Gostássemos ou não, essas pessoas participavam da nossa história. Ajudavam a moldar a forma como nos víamos, o valor que nos atribuíamos e a maneira como existíamos entre os outros. E assim iam se formando as referências pelas quais cada um reconhecia, por dentro, o próprio tamanho.

Talvez a autoestima também começasse ali. Em que momento nos desviamos de nós mesmos?

Episódio 2/5 | Quando o valor se formava no convívio

Quando menos vozes participavam da nossa medida, sabíamos melhor quem éramos?

Quando menos pessoas influíam na maneira como nos medimos, menos vozes participavam da montagem do nosso sistema interno de valor. Menos gente autorizada, por convivência, repetição e proximidade, a dizer o que contava, o que pesava, o que merecia admiração e o que pedia correção.

Os pressupostos de valor se formavam no dia a dia. Vinham dos olhares, dos elogios, do orgulho ou da vergonha expressados, das advertências e consequências. Aos poucos, íamos aprendendo o que podia e o que não podia. Na maioria das vezes, isso nem precisava ser explicado. Os costumes faziam esse trabalho.

Com o tempo, o próprio convívio produzia uma forma de coerência psíquica. Às vezes confortável, às vezes dolorosa, mas ainda assim coerência. Um eixo mais estável, que organizava, para o bem e para o mal, o modo como nos julgávamos, nos aceitávamos, nos cobrávamos e até o sentido das mudanças que desejávamos fazer.

Longe de ser um mundo ideal. Muitas vezes, era duro, injusto, limitador. Mas a nossa medida ia se formando dentro de um perímetro reconhecível, com fronteiras mais delimitadas.

Talvez uma parte do mal-estar contemporâneo tenha começado aí. Os contornos perderam definição. O campo de avaliações se expandiu. E, com ele, também cresceu o número de olhares silenciosos que nos alcançam.

Episódio 3/5 | A fragmentação das réguas

Hoje, a vida acontece em campo aberto.
As referências se multiplicaram. A avaliação vem em escala e por vias que não dependem de vínculo, de convivência ou de tempo compartilhado. Cresceu demais a quantidade de gente que opina, sugere, compara, avalia, julga. Isso alterou o volume da experiência e a sua própria natureza.

O critério se fragmentou. Passamos a receber sinais contraditórios sobre o que é desejável, aceitável, admirável ou suficiente, dependendo do ambiente, da bolha, da moda, do discurso dominante, do algoritmo. Em vez de um percurso de reconhecimento entre pessoas reais, começamos a viver sob uma lógica de vitrine.

Mas tudo na vida tem preço. Começamos a nos medir por instrumentos úteis para a visibilidade, embora estreitos demais para a vida real. Eles registram desempenho, impacto, circulação. Capturam, no entanto, muito pouco da contradição, da pausa, da densidade, do amadurecimento lento, da oscilação que acompanha qualquer existência humana minimamente verdadeira.

A régua mudou. Estilhaçou-se em milhões de réguas menores, instáveis, simultâneas, e isso afetou a sensação de suficiência e de saber de si. Passamos a dizer “eu mesmo”, “a minha verdade”, mas, no fundo, passamos a viver sob convocação permanente à correção de rota. Isso produz um cansaço existencial que atravessa o cotidiano e a identidade. Como se sempre faltasse alguma coisa. Como se estivéssemos sempre em dívida com uma “versão melhor” de nós. E até isso fomos criando e aprendendo a aceitar: versões de nós mesmos. O que antes ficava mais restrito aos compêndios de psiquiatria ganhou ares de leveza diante da instabilidade das exigências externas.

Quando os critérios se fragmentam, multiplica-se a dificuldade de viver. Fragmenta-se também a medida com que nos avaliamos. E, quando a nossa medida se dispersa, a pergunta deixa de ser apenas “como viver?”. Ela passa a ser também: quem, afinal, tem autoridade para participar da nossa medida?

Episódio 4/5 | Quem pode entrar na nossa medida

Eu não acredito muito em frases fáceis do tipo “não ligue para a opinião alheia”.

Isso simplifica demais uma experiência que é mais complexa. Nós somos seres relacionais. O olhar do outro importa. Ele participa da nossa constituição, da nossa história, da forma como nos percebemos, da maneira como vamos nos reconhecendo e também nos estranhando ao longo da vida.

A pergunta, então, pede mais rigor. Que olhar é esse? De onde ele vem? Que lugar ocupa na nossa vida? Com que peso entra na construção da nossa medida?

Nem toda opinião merece virar critério interno. Nem todo olhar tem qualidade humana suficiente para participar da construção das exigências que fazemos a nós mesmos. Por isso, maturidade talvez tenha muito a ver com discernimento: saber quem autorizamos a entrar na montagem do nosso valor.

Trata-se de escolher com mais rigor as referências que terão voz dentro de nós. Isso não elimina a dor de ser mal compreendido, rejeitado, criticado ou comparado. Também não nos livra da força do ambiente. Muda, porém, a posição a partir da qual vivemos tudo isso. Em vez de receber qualquer olhar como se ele tivesse autoridade natural sobre nós, começamos a perguntar quem é esse outro e que legitimidade ele realmente tem para participar da nossa medida.

Esse discernimento se tornou ainda mais necessário porque, no nosso tempo, quando não escolhemos conscientemente, alguma coisa escolhe por nós. O algoritmo escolhe. A lógica da comparação escolhe. O medo de ficar para trás escolhe. O ambiente escolhe. E, quando isso acontece, o nosso valor corre o risco de ser organizado menos por vínculo do que por aprovação.
O que acontece com a vida psíquica quando a aprovação começa a ocupar o lugar do vínculo?

Episódio 5/5 | A curtida como bússola da autoestima

A cultura do acúmulo de seguidores nos embaraçou nas tramas das redes, e fomos perdendo intimidade conosco, trocando-a pelos olhares de fora. Isso está saindo caro, porque empurra a nossa vida para um jogo duríssimo, em que existir vai se parecendo cada vez mais com provar alguma coisa, já que os critérios mudam o tempo todo.

Nós nos observamos demais, nos corrigimos demais, nos preparamos demais. A experiência virou automonitoramento. A espontaneidade passou a parecer risco. A verdade começou a soar como exposição. E, pouco a pouco, fomos ficando mais reativos, mais dependentes do retorno de fora e mais vulneráveis à aprovação alheia.

Talvez um dos dramas do nosso tempo esteja aí. Público demais e testemunhas de menos, muita opinião e pouco encontro, juízo por toda parte e poucas relações nutritivas. Quando os vínculos enfraquecem, a aprovação parece solução. Só que aprovação rasa não preenche. Anima, excita, alivia por um instante e cobra logo em seguida.

É nesse ponto que a epidemia de baixa autoestima deixa de ser apenas um problema individual. Aos poucos, a pessoa já não vive apenas a própria experiência. Vive também sob a expectativa do olhar que virá, do julgamento possível, da aprovação desejada, da rejeição temida. Oscila, se desorganiza e vai perdendo o compromisso com a própria vida. E o risco passa a ser coletivo.

Se eu tivesse que guardar tudo isso numa única formulação, eu diria assim: o mundo ficou grande, e com ele cresceu a tentação de viver em estado de aprovação. E, quando a vida vira plebiscito, ela perde a intimidade. Vira campanha.

O percurso desta série foi esse. Primeiro, perdemos contorno. Depois, perdemos critério. Por fim, corremos o risco de perder a intimidade. Talvez uma parte importante do sofrimento contemporâneo venha justamente daí: estamos tentando firmar a autoestima num terreno que quase nunca oferece vínculo, apenas resposta.

Recuperar uma medida mais viva, mais própria e menos dependente de fora talvez seja uma das tarefas subjetiva mais urgentes do nosso tempo.